Octavio Antonio
Katinguá- urgente – Chegou Buya, o homem-bomba, terror da Facção Al-Jibeira.
- Bixin, estamos em tempos de Copa do Mundo de Futebol.
- Buya, não tem pra ninguém, é o nosso destino.
- Bixin, se Dunga não ajuda o destino, o destino ajuda o Dunga.
- Buya, ripa na chulipa!
- Bixin, tô com você e não abro. Dizia Nelson Rodrigues: a Seleção é a Pátria de chuteiras. Os craques honram a Pátria e as chuteiras capricham no toque. Neste momento em que se fabricam resultados, realço as virtudes do silêncio. Copa é copa desde que a bola rola.
- Buya, gritemos: pedala Robinho, pedala!
- Bixin, lembrarei aqui um grande atleta brasileiro que as pessoas desconhecem ou não se lembram mais. Trata-se de Heleno de Freitas, advogado, boa pinta, um corisco com a bola nos pés, famoso mas bipolar - brigava com adversários e colegas do próprio time por conta de uma jogada malfeita. Um gentleman fora das quatro linhas. Dentro de campo, foi o mais excêntrico das celebridades do futebolísticas, ídolo do Botafogo - RJ dos anos 40, morreu sifilítico, louco e abandonado, aos 39 anos de idade.
- Buya, estou surpreso, nunca a tinha ouvido isso.
- Bixin, com Heleno, não havia meio termo: ou ele deslumbrava a torcida com uma exibição de gala ou era expulso. Os fãs o endeusavam, os adversários detestavam-no.
- Buya, temos que resgatar a memória desse craque.
- Bixin, Heleno era um artista da bola, seus passes e suas jogadas beiravam a perfeição. Vitimado pela sífilis que destruiu seu cérebro, terminou seus dias como um farrapo humano. Diz a história que,em 1951, já doente, ele integrou a equipe do América contra o São Cristóvão. Ficou 25 minutos em campo. Não conseguia correr, estava debilitado, contudo seu desejo foi realizado: jogar no Maracanã.
- Argumente. O mundo será diferente.