No itinerário do circuito matinal, entrei num botequim para tomar um café esperto. Na verdade, a cidade não desperta, apenas acerta a sua posição. Eu pretendia unicamente garimpar do cotidiano algo de seu variado conteúdo. Porém, fixou-se em meu espírito a idéia de que o homem pode atuar racionalmente sobre o destino, o qual dizem ser previamente traçado. Morrerei, azar o meu, queimando as pestanas, pois há coisa estranha no céu e não é avião de carreira.
Às vezes sou levado a acreditar na Lei de Murphy: “O que tem chance de dar errado, certamente dará”. Quase todo mundo aprende com os tombos, exceto os tolos. Sei perfeitamente que alguns me consideram xiita. Mas, sei também, e isto muito me honra e orgulha, que a maioria sensata concorda com o meu rosário. Tudo confirmado pelas manifestações de carinho e admiração que recebo constantemente. Àqueles que me repudiam, lamento a perda de tempo. Aos que me estimam e me querem bem, a recíproca é verdadeira.
Os polêmicos, mesmo vocacionados à crítica ou ao desenho da moda, respondem bem ao estímulo. A história continuará seu curso. Frases de efeito, cafunés, enfim, o mesmo ritual será desencadeado para conquistar mentes e corações. O contrário é trabalhar no vermelho. O tempo traz mais rugas, mais bagagem, cabelos brancos e uma infinidade de marcas. Algumas de alegria, outras de tristeza. Porém, é na colheita que se separa o joio do trigo. Ninguém é de ferro. Ninguém agüenta mais a miserável condição de marmota. Não é necessário estar dentro dos segredos para saber que uma boa fração está pagando pra ver. Optaram por conseqüência, contudo optaram resmungando, violentados nas suas convicções.
Reza a inteligência popular que, quando ganhamos um limão, devemos, em vez de reclamar, espremê-lo, juntar água, açúcar e transformá-lo numa deliciosa limonada. Atualmente estou com a cabeça nas nuvens. E, ao contrário do que se entende, estar com a cabeça nas nuvens não é se alienar. É exercitar o imaginário. É procurar no inconsciente a solução para os problemas que a lucidez não vislumbra. Naturalmente, muitos fatos ficam tão patentemente à vista que não há como enganar. Igualam-se a uma peça teatral, na qual os atores, em vez de representar o povo, representam diante do povo.
Argumentar é preciso. O mundo continua regido pelas leis arcaicas de mercado. Por isso, impõe-se uma revisão de valores anacrônicos, de prazos vencidos e aliados do atraso. Outra mentalidade, rompendo com o ciclo vicioso, é imprescindível e inevitável. Com 26 letras se escreve a história de amor de Capitu e Bentinho ou a lenda do baiacu que, ao ter as costelas coçadas, se enche de vento e pensa que é tubarão. Basta saber combiná-las. Dá um pouco de trabalho, mas não é tão difícil.
Seleção natural é como mola propulsora. Não é à toa que dizem ser preciso tomar cuidado com ela, pois pode, pela pressão, varar o batente. Eu diria, com muita firmeza, que é a força centrífuga arrastando para fora do raio de ação o corpo em movimento circular.
Argumente. O mundo será diferente.