Não me lembro o dia, o mês, nem o ano. Isso tem um bom tempo. Só me recordo que o fato aconteceu durante uma cerimônia de casamento, cujo local era a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus dos Aflitos. Horário: por volta das 20hs. A noite estava quente, o céu azulado e lá no alto brilhava cintilante uma estrela solitária.
Os noivos oriundos de famílias tradicionais, atraíram para a solenidade um grande numero de convidados, os quais, elegantemente vestidos e entusiasmados, preencheram o interior do templo. Crianças arteiras e esfuziantes passeavam em ziguezague pelos corredores repletos, enquanto os pais encontravam dificuldades para impedir suas traquinagens..
O padre, em sermão próprio para o evento, pregava com eloqüência a importância do matrimônio, para a família e para os seguidores do cristianismo.
Já reportei aqui, o peso da cruz que carrego há muitos anos, com minha insuportável dor de cabeça diária, atualmente sob controle graças à descoberta de novos métodos de tratamento, de fórmulas farmacêuticas modernas. Mas, a cefaléia continua em stand-by. Se falhar na dose diária, lá vem ela como uma marreta batendo sobre o cérebro.
Pois bem, nesse dia não foi diferente. Durante o ato litúrgico a marreta começa a bater. Incomodado e com o calor sufocante dentro da Igreja, saí para me refrescar. Tenho hábito de carregar nos bolsos, a medicação específica, porém naquela oportunidade havia me esquecido. A solução era suportar o desconforto.
Fora da Matriz, juntei-me a um grupo e passamos a trocar idéias. Repentinamente, se aproxima um senhor em estado de mendicância e embriagado. Estava ali um infeliz, vida sofrida, tentando chamar a atenção para seu infortúnio. Num lampejo de lucidez exclamou: “O corpo cai, mas a alma tem de ficar em pé”. As palavras proferidas, mesmo sob os efeitos do álcool, demonstravam uma humanidade comum. O grupo vestiu a carapuça e se retirou. Certamente, foi tratar do espírito porque o corpo não tinha mais jeito.
Não pratico exorcismo, não tenho delegação para expulsar o Diabo dos outros ou de mim mesmo, porém, envergonhado com minha pobreza espiritual e com a dos companheiros, calei-me covardemente. Inexplicavelmente, a dor passou, o mendigo se afastou e eu, humilhado, me penitenciei pela miserável condição humana.
Argumente. O mundo será diferente.