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Médico de espelunca

O aratá acreditava nas palavras do homem branco. O branco acreditava na pilantropia. O aratá viu o grito suplicante da avestruz que, ferida, foi ao chão. Três ecologistas a acudiram, todos os três de chapéu na mão. O aculturado sonhava ser um poderoso chefão. Ao aratá ensinaram que Santo Agostinho, de devasso e pecador, converteu-se aos 32 anos e se tornou o Doutor da Igreja.
A ocasião faz o santo e também o coisa-ruim. O aratá, procurava no nheengatu a complexidade do valor das coisas ditas civilizadas. Quanta ingenuidade numa mente só. O aratá lia “Iracema”, o aculturado, “O Príncipe”. O indígena se apegava a José de Alencar e o civilizado em Maquiavel, afinal os aculturados se esquecem mais facilmente da morte do pai do que da perda do patrimônio.
Surgem os meios que justificam os fins. O povo. Ora, o povo. Desde o tempo e o vento, antes de subir na vida, ostentando a saga de “médico de espelunca”, o charlatão gastou a baba no golpe do vigário. A psicopolítica era estudada com afinco para que a massa-de- manobra o conduzisse ao pedestal da glória. A arte, a ciência, a cultura, os espetáculos e festas não podiam deixar de ser visitados, ainda que tivesse de comer pastel-de-feira, tomar cerveja quente, saborear hambúrguer frio e tragar cigarro de palha. Aliás, já dizia Jânio Quadros, o Homem da vassoura, no início dos anos sessenta, que sua vitória à Presidência da República se devia não às idéias e planos que defendia, mas ao fato de traçar tudo o que lhe era oferecido. Se o mundo fosse acabar em barrancos, ele queria morrer encostado. Enquanto, o silvícola lutava para conquistar a virgem dos lábios de mel e cabelos mais negros que a asa da graúna, o esclarecido levava vantagem em tudo, certo. “Triunfai sempre – pouco importa com que meios – e sempre tereis razão”.
E assim, o branco continuava sua peregrinação pelas visitas a residências, aparecia nos jornais e se deslocava pelas ruas, de vento-em-popa. Nos programas prometia o paraíso. Na persuasão explicava a imortalidade da alma, se achava poeta e afirmava que todos têm direito ao mesmo bolo, ao mesmo teto e ao mesmo trono.
O aratá comia o pão que o branco amassou com o pé, apagava incêndio com a camisa do corpo e fazia papel de pajé da tribo. Como seguia à risca os mandamentos filosofais, o branco cara-de-pau e coração de isopor, entrou em transe depois de um resultado de escrutínio. Não mudou, não se revelou, apenas confirmou. O aratá, que primeiro se contaminou, ficou ao léu e de tanto pensar, concluiu que do sedutor de mentes e corações, só se poderia esperar rasteira. Porém, entre um dia e outro, sempre haverá uma noite. Entre buias e mutretas, surge “armando treta”.
Entre memórias em cacos e controvérsias rasas, o aratá não podia negar que havia fartas evidências para uma certa desconfiança, uma certa dúvida, uma certa vontade de acreditar que, de esmola grande o santo desconfia, de bom de bico basta o Chico. Confusão demais, contradição demais, informação demais, tudo demais. Afinal, hoje não se tem certeza de nada e, se é verdade que o mundo sempre viveu em transição, a transição agora é tão planejada que acaba deixando os otários no meio do caminho, ou permanentemente descrente porque muito se fala e nada se cumpre. Mas, moda é moda desde que o mundo roda.
Argumente. O mundo será diferente.

- Buya
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