Ainda bem que os leitores não vêem nem conhecem o estado de espírito do cronista. Apesar da intenção em ser útil, o ofício da escrita não é um mar de rosas como todos pensam. Nem os poetas que vivem a admirar a luz do luar, pensando ou viajando pelos devaneios do infinito, conseguem externar seu lirismo sem que haja um desgaste emocional. Guiado pela ânsia da transpiração, lança-se numa amnésia momentânea, fazendo um lampejo angelical invadir a alma numa sensação paradisíaca que espelha sonhos e fantasias.
O termostato se regula numa temperatura baixa própria para o trânsito de um estado real, para um sentimento chocante. Depois que esvaziarem o cofre ou a bolsa empanturrada de níqueis cunhados pelo suor dos trouxas e dos fiéis, a estrela de cinco pontas será apenas uma marca registrada da Texaco.
Para os românticos ficará apenas a tristeza de um dia terem sido iludidos pelos companheiros de arquibancada da Vila Euclides, que pregando a boa nova não conseguiram evitar que o burgo-operário se deixasse levar pelas estratégias engendradas por seus asseclas, trocando um projeto de governo por uma tática de permanência no Palácio do Planalto de onde pudessem continuar praticando seu futebol acompanhado de suculento churrasco ao ritmo de um bom pagode comandado por Zeca Pagodinho.
Chora Dirceu, chora Genuíno, chora todo mundo, choram eles muito menos que eu. Enquanto isso, aqui no andar de baixo, falar sobre malas e cuecas virou esporte nacional. A policia age, a imprensa divulga e todos se manifestam. A mala ganhou vida, virou estrela. Antes batom na cueca, hoje, dólar na poupança.
Não consigo concatenar minhas idéias. Não consigo ver uma luz no fundo do túnel.. Chego a pensar em arriar a bandeira e ensarilhar a esperança. As imagens são projetadas como num filme de ponta-cabeça. O enredo é pobre. A ficção é ridícula. O argumento não se sustenta. A safadeza emergiu das entranhas dos safados, os ratos desafiaram a ratoeira, os imbecis mostraram a imbecilidade e os vigaristas penhoraram as fazendas fantasmas, os cavalos de São Jorge, os bois de Parintins e as laranjas bichadas da beira da estrada.
“O desespero tem a expressão do irrevogável, não porque as coisas não possam de novo tornar-se melhores, mas porque arrasta para seu abismo o próprio passado. Eis por que é tolo e sentimental querer conservar puro o passado diante da torrente de imundícies do presente”.
Argumente. O mundo será diferente.