Além do jeitinho, do samba e do futebol, o que mais me encanta neste solo fecundo, é a capacidade da sua gente em criar palavras e expressões inéditas e quase impensáveis. Ou, brincar com as letrinhas enxeridas, dando-lhes novas acepções e compreensão.
Não bastasse o saudoso Adoniram Barbosa, poeta e sambista paulista que fazia da pronúncia e ortografia corrompidas o seu charme musical, de repente surgem novidades anônimas excêntricas. São lampejos que a mente rápida constrói, nos quais se inserem momentos e circunstâncias.
Como vivo atento às espirituosidades malandras, me lembrei de uma frase equivalente ao “by-pass” dos americanos, cujo significado é “passar alguém para trás”. Trata-se da pouco conhecida “passaram a euza”, cujo uso não é freqüente, apesar da constatação diária de tantas “euza” desmerecendo, sacaneando e até ameaçando quem não é filho de pai assustado. O verdadeiro sentido de “euza”, não sei. Os dicionários eletrônicos informam: verbete inexistente. Recentemente, surgiu a “andorinha”, inventiva fugaz que substitui a moeda oficial, sugerindo que, se a maracutaia não for bem feita, o dinheiro pode voar embora.
Agora, surpreendentemente, ouço do amigo Rossini, o vocábulo “estrumado”. Fico embasbacado. A língua portuguesa é ingrata e avara: guarda os seus mais belos trunfos como um usurário esconde seus tesouros. Procuro socorro no Aurélio, no Houaiss, e nada. Interpelo Aratá, nada. Recorro a Quintino e, lá vem a explicação: apesar da origem etimológica, o adjetivo “estrumado” passou por um processo de nobilização e chegou à acepção de cultura, inteligência, sabedoria. Desligou-se do quimo que jogaram na Geni. Bem, como não passo de um paspalho, relembro o velho ditado: sapateiro, não vá além das sandálias. Querem mais ou basta?
Bem, a verdade é que de tanto engolir o estrumado do Rossini, comecei a repeti-lo inconscientemente. Continuo minha peregrinação persistente pelo mundo das letras. Talvez seja algum regionalismo aprimorado lá pelo cafundó de Judas e que veio parar aqui no “Catinguá dos Disinfeliz”. Por isso, é que nunca tive notícias desse engenho lingüístico. Enfim, depois das abalizadas explicações, cheguei à conclusão que “estrumado”, é condição inerente a sujeito bem informado. Um cdf, provavelmente. Ou então, um professor Pardal, um sabe-tudo.
Ninguém conhece melhor a coloquialidade do que o espírito-moleque dos críticos afeitos à criação das gírias populares. De maneira alguma a doutrina das coisas que deverão acontecer no fim do mundo, foi colocada em xeque. Mas, no final dos tempos, todos devem estar estrumados, pois a preparação para a passagem ao andar de cima requer preparação. Contudo não se estrume porque o mundo não vai acabar. Haverá muito tempo para se estrumar, não é preciso ser agora, nem no sofá se estiver lendo esta detestável crônica.
Quem sabe não seria uma boa idéia para o Macaco Simão, que vive às turras com o óbvio “lulante” e o Antitucanês Sacal. E, como sou um idiota – não me sustento do ócio do negócio – busco na língua e na letra, saúde e paz, porque o resto a gente corre atrás.
Argumente. O mundo será diferente.