Pedé encontrou Bixin, um amigo que não via há um bom tempo. Ele fixou residência no nordeste brasileiro e, por razões profissionais e particulares, só se falavam por telefone. Devido ao alto custo das tarifas, os contatos se resumiam ao menor tempo possível. Assim sendo, a ligação era rápida e o diálogo se baseava em trocar notícias da família, a saúde, enfim, o básico entre companheiros distantes.
Desta vez, o encontro era de corpo presente e aí, o papo rolou noite a dentro. A pauta foi colocada em dia. Dentre os assuntos, Pedé falou sobre a reeleição do homem mais questionado neste início de século, o Presidente George W. Bush, dos Estados Unidos da América. Disse que isso significava uma cartada decisiva para o século XXI. O mundo poderia entrar por um túnel de monstruosidades, do qual sairia com seqüelas irreversíveis. Os americanos chegaram à Lua, mas não conseguiram botar um homem equilibrado na Casa Branca. Optaram por um medíocre candidato, que agora deu para desmunhecar em público.
Conversa vai, conversa vem, o assunto desviou para as últimas eleições nacionais e chegou-se à conclusão que, se o problema fosse somente nos EUA, se daria um jeito. Aqui, a incerteza ronda e o cidadão vive sem dó nem piedade. Não passa de um pastelão adormecido. Ninguém enxerga mais nada. Tudo continua como d’antes. No Brasil, o desdém é um excelente argumento, uma mina de ouro, um passaporte para a fraqueza, uma máquina ideal funcionando nos porões clandestinos. Afora as demais peculiaridades, a vida é um bazar de ilusões. Entre ela e a solidão há mais malícias embutidas do que supõe nossa cínica malandragem.
Como não entendia de artimanhas, pois se entendesse, nunca teria caído em arapucas, a curiosidade levou Pedé a questionar o amigo e, então, perguntou: Bixin, sendo você um sujeito capaz, poeta e filósofo, ativista convicto, por que nunca dedicou seus dotes à composição de samba-enredo que enaltecesse o ronco dos peixes? Bixin, respondeu: “Quem disse a você que intelectual tem lugar assegurado na Ala dos compositores? Quem disse que o talento é quesito importante na composição do hino da Ilha da fantasia? Compor para quem não quer ouvir, é tomar elixir de vida curta. Ademais, em matéria de festa da carne somente o dindin não é descartável. O tema é:“de grão em grão a galinha enche o papo”. Se não comer no mesmo coxo, não encontra poleiro para sentar”. Não pertenço ao bloco do sujo. Não sou Maria Sapatão que, de dia é Maria, de noite é João. Concordou, Pedé. O macaco tá certo.
Antes, os protagonistas tinham todo o tempo do mundo para as suas presas: eram todos ouvidos e voz dos pupilos. Agora, moram num castelo de onde às vezes saem para se deslumbrarem com suas imagens e vaidades. É a triste realidade. Exemplos não faltam. É só assistir a folia de Momo. Fim de festa, o bloco desaparece. Exila como refugiado. Foge como o diabo foge da cruz. E quando surge, a cabeça está inchada, a boca nervosa e o ovo atravessado. Filme velho, melhor inventar outro.
Vêem as desculpas esfarrapadas. Afirmam que o país é ingrato, que a situação está difícil, que a cigana os enganou. Que a solução é muito trabalho. O povo em primeiro lugar. Pobre povo, mudou de nome. O ruim da vitória é que ela não é definitiva. O bom da derrota é que ela não é permanente. Como diz Giuseppe Tomasi em “Il Gattopardo”: “É necessário que tudo mude se desejamos que tudo permaneça como está”.
Argumente. O mundo será diferente.