Li num jornal qualquer que a timidez de Chico Buarque beira a má vontade. Esta insinuação foi engendrada por um cidadão que fora assistir ao show de Chico, no Canecão, Rio de Janeiro. O comentário, premeditado, faz parte da insidiosa difamação do artista que sem favor algum é o princípio ativo indispensável ao perfume da Música Popular Brasileira. Por isso, passa a ser vítima dos milongueiros da geléia geral.
Na vida mundana é assim. O sujeito confessa o ódio, o medo, a antipatia, a cobiça, o ciúme. Inveja nunca. Por trás da inveja vulgar há sempre a ganância material. Quando a competência e o talento alheios desabrocham, sempre aparecem os algozes dispostos a cortar a cabeça do agente em ascensão. Entra em cena a “operação abafa”. Borram-se os cardeais da confraria. Reuniões secretas, cochichos ao pé do ouvido, a claque fica em polvorosa. “O cara está aparecendo demais, vai ofuscar o nosso brilho, temos que eliminá-lo”. Pau nele, impiedosamente, até – pelo menos - ele calar a boca e desistir. Começam as baixarias, hostilidade e outros que tais. Enquanto isso, a maledicência desliza e a tese de Rui Barbosa continua mais atual do que nunca.
Autenticidade não é mais virtude. Por que? Os asquerosos são de lascar, mas a turma da vida é viva, está viva, graças a Deus. A idéia de que o talento é relevante, cai por terra. Rapidamente, os anjinhos mostram as suas garras. Certa vez, indagado sobre o gelo aplicado a um militante, alguém respondeu: É porque ele tem uma verruga na orelha. Embromaterapia pura. Nada justificava o menosprezo, a não ser o pavor pela possível perda de espaço, bem como o desvendar do fingimento. Psiquiatras assim explicariam: o inteligente, o sério, o honesto, o simpático, o dinâmico, provocam espasmos emocionais.
Antigamente os discursos políticos eram todos intitulados. Consta que o jornalista e deputado Carlos Lacerda, nominou um de seus pronunciamentos de: “A Corrida dos Touros Embolados”, numa referência às touradas em que os animais não morrem. A essência era a mentira parlamentar. Assim se manifestou: “Tudo aqui é fingido. Tudo é mentira. Finge-se a amizade, finge-se o amor, finge-se o companheirismo; até o fingimento é fingido”. E terminou: “Aqui até o ódio é fingido; de verdadeira somente a algibeira”.
Isso dá uma idéia clara do desejo de expor as mazelas encruadas no sistema. Às favas o escrúpulo de consciência. Seria bom se não fosse verdade, mas de um ser humano tudo se espera. Até a inversão de valores. O réu tenta ser vítima e a vítima que se cuide para não se tornar réu. Hitler queimava livros que contrariavam suas vontades ou divergiam da sua bestialidade. Hoje, sua alma queima no fogo do inferno.
Uma das ilusões mais freqüentes na política é tomá-la por seu valor de face, não pelo valor real. Por mais que se desconfie dos políticos, a tendência é sempre acreditar que neles estejam em jogo o que se diz que está. O sentido mais profundo, foge à astúcia comum e só se torna claro com a participação.
Grupos e interesses são veículos utilizados em momentos diferentes para diferentes propósitos. Os pés pisam onde a cabeça pensa. Frase de efeito, não. Retrato vivo da antropofagia inculta. Que ninguém se iluda, o sofisma e a torpeza passeiam entre os anjos de cara suja.
Argumente. O mundo será diferente.