- Bixin, “prepare o seu coração pras coisas que eu vou lhe contar, eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar. Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar, e a morte o destino tudo , estava fora do lugar, eu vim pra consertar.”
- Que é isso, Chefe? Tá maluco? Consertar o mundo? A morte?
- Pois é , Bixin, o emotivo sofre demais, vive o problema dos outros, tenta resolvê-los e, não raramente, esquece os seus, quando não são perseguidos.
- Certo, Chefe. Vejamos: Isabella, menina pura, inocente, vítima de brutalidade animalesca. Encheu de lágrimas os olhos e de revolta todos os lares brasileiros.
- Então, Bixin, naquele rostinho de anjo visualizei o rosto de meus filhos, netos, sobrinhos e das crianças esquecidas lá no cinturão da nossa periferia. Como não se sensibilizar com tamanho sofrimento? Como não imaginar que muitas Isabellas anônimas sofrem de crueldades físicas e psicológicas?
- Buya, agora o senhor foi fundo. Colocam-se, diariamente, a peneira na frente do sol.
- Bixin, Isabella é o retrato da infância do Brasil e, por conseguinte, o espelho do perigo que correm as crianças desprotegidas socialmente hoje, aqui e agora.
- Muito bem, seu Buya. Faça história, não faça vítimas.
- Bixin, os maiores oprimidos da sociedade, são as crianças. De todas as vítimas, são elas que mais sofrem com a violência e a maldade dos adultos e, crescem, quando crescem, são preparadas para oprimir os outros.
- Seu Buya, o senhor pensou alto, mas por que os homens, via de regra, ignoram essa tese e só investem no egoísmo e nos bens materiais?
- Cala a boca, Bixin! É de sonho e de pó, o fim deste cronista solitário.
- Argumente. O mundo será diferente.