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Bacanal de serpentes

O animal continua à solta. Na calada da noite, tenho um pesadelo e num rompante de vigília, vislumbro cenários esfumaçados, corredores sombrios e serpentes em pé de guerra. Querem me atacar. Coisa de réptil. Abro uma porta e dou com um serpentário, com víboras excitadas pelo som da flauta do amestrador. Assessoram-nas uma bruxa gritando como araponga no cio e um satanás-pinduca cujos olhos secavam até samambaia de plástico. Gemiam e gritavam, soltando a língua maldosa contra a coerência; escancaravam a boca e mordiam os beiços; bem mais rápido que pensavam quebravam os dentes e destilavam veneno. Assusto-me com a cena macabra. Visualizo uma batalha. Toda batalha é travada para que a verdade confunda e destrua a falsidade. A verdade sempre é uma só e a falsidade é coceira de fiancó. Vou para o computador e, diante da tela vazia as mãos movimentam e o cérebro desperta. Verbalizo o bacanal das serpentes.
Aguça-me a sensibilidade, apuro o verbo, me socorro na semântica para que a visão seja fielmente descrita como o ”Cascagrossa” e seus asseclas preparavam a sessão funesta. Embora o raciocínio seja espontâneo, a arte da escrita é um exercício mental pesado. Descrever fatos maléficos é indigesto. Existe a recompensa: os verdadeiros leitores, os eruditos, aqueles que lêem com olho clínico compreendem o sentido da ficção.
Narrar intuição é dose pra leão. Nem sempre o enredo é claro, não pela censura prévia, mas para que o autor consiga viver tranqüilo, não fique à mercê dos despachos de encruzilhada de vicinal. Ebó nas bestas apocalípticas! Pelas lágrimas divinais, livrai-me dos invejosos, da mão dos criminosos e dos laços do satanás. Para botá-los pra traz, Deus na frente, paz na guia, Ó Santa Virgem Maria.
Se o foco envolve poder, nem se fala. É chumbo pra todo lado. Areia no ventilador. O baixo clero desfila no bloco da baixaria. Seus pupilos trajam-se de palhaços. Colocam em dúvida: ser ou não ser. Fazem pressão, sabotam direitos sagrados, caluniam. Regras do trottoir.
A calúnia se encaixa com o medo e a esperança: um gera o outro. A verdade produz a sensação de que o sigilo e a dúvida são expoentes essenciais da vida em sociedade. A mentira esparrama a cizânia no conjunto social desenvolvendo-se pela malvadeza e pela luta insana, com predomínio sempre do mais forte, com raras exceções que só confirmam a regra.
O plebeu deslumbrado irradia truculência e arrogância, em espaço e tempo cronometrados, a indivíduos que reagem aos seus objetivos. Nem seria diferente: a cascata modula as palavras e define as almas que o Cascagrossa deseja atirar ao fogo do inferno, mas como o mal da vitória é que ela não é definitiva e o bom do mal é que ele é passageiro, não raramente o feitiço vira contra o feiticeiro.
Para praticar a feitiçaria de São Cipriano, haja inteligência para compreendê-la e, normalmente, os bofes não conseguem distinguir a obra de arte do mestre Picasso da pica de aço do mestre de obras. Assim, frustram-se as intenções, enlameiam-se a conduta, a derrota flagela a mente. A mentira é, no dizer de Platão, remédio e veneno. Tudo é questão de dose. E serpente tem veneno para uma mordida só.
Argumente. O mundo será diferente.

- Buya
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